A Sociedade    |    Palavra do Presidente    |    Oftalmologistas Sócios    |    Sociedades Filiadas    |    Leis e Normas    |    Glossário    |    Recomendações
Relato de Caso Revista vol.77 - nr.4 - Jul/Ago - 2018

Oftalmomiíase externa

External ophthalmomyiasis

Autores:Abelardo de Souza Couto Junior1, Alléxya Affonso Antunes Marcos2, Gabriela dos Santos Souza Barros2, Gabriella Nogueira Moraes2

Resumo

O objetivo deste resumo é relatar um caso de portador de oftalmomiíase externa, discorrendo sobre o quadro clínico, os diagnósticos diferenciais e as opções de tratamento. As informações foram obtidas por meio de revisão do prontuário, entrevista com o paciente e registro fotográfico dos métodos diagnósticos e terapêuticos aos quais o paciente foi submetido. Dados foram analisados junto a uma extensa revisão da literatura. O nosso artigo relata um caso de um paciente que foi inicialmente diagnosticado e tratado como celulite pré -septal e após avaliação de especialista em oculoplástica foi realizado o diagnóstico e tratamento adequado para oftalmomiíase. Também revela a importância deste diagnóstico, infrequente nos grandes centros urbanos, seu tratamento e evolução.
 

Descritores: Hipodermose; Infecções oculares; Blefaroptose; Ivermectina; Relatos de casos

Abstract

The purpose of this report is to describe a case of external ophthalmomyiasis, discussing the clinical picture, differential diagnoses and treatment options. The information was obtained by means of a review of the medical record, an interview with the patient and a photographic record of the diagnostic and therapeutic methods to which the patient was submitted. Data were analyzed together with an extensive review of the literature. Our article reports a case of a patient who was initially diagnosed and treated for pre-septal cellulitis and after evaluation by a specialist in oculoplastics, the diagnosis and appropriate treatment for ophthalmomyiasis was performed. It also reveals the importance of this diagnosis, infrequent in large urban centers, its treatment and evolution.
 

Keywords: Hypodermose; Eye infections; Blepharoptosis; Ivermectin; Case reports


_________________________________________________________________
1 Faculdade de Medicina de Valença, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 2 Instituto Benjamin Constant, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Os autores declaram não haver conflitos de interesse. Recebido para publicação em 23/12/2017 - Aceito para publicação em 06/03/2018.

 

Introdução


Entende-se por Miíase a infestação dos órgãos e tecidos do homem e outros vertebrados de larvas dípteras que completam seu ciclo ou pelo menos parte do seu desenvolvimento dentro ou sobre o corpo do hospedeiro, alimentando-se dos tecidos vivos ou mortos deste. (1) Os dípteros que causam a miíase em humanos podem ser divididos em 3 grupos: (1) obrigatórias: larvas que naturalmente se desenvolvem sobre ou dentro de vertebrados vivos. Nestes, o homem pode ser o hospedeiro principal ou incidental; (2) facultativas: larvas de dípteros que se desenvolvem em matéria orgânica em decomposição. Podem atingir tecido necrosado no corpo do hospedeiro; (3) pseudomiíase ocasionadas por larvas de díptero ingeridas com alimentos.

A maioria dos casos de miíase primária em humanos é causada por duas espécies: Dermatobia hominis e Cordilobia antrophaga.(2) A miíase provocada pela Dermatobia hominis geralmente é causada por uma só larva, enquanto a causada pela Callitroga hominivorax promove inflamação menos localizada, com inúmeras larvas, que possuem movimentação ativa, no mesmo sítio de infestação.(1) As manifestações clínicas dependem do espécime, órgão ou tecido infectado. A larva pode ser encontrada em cavidades corporais e no trato gastrointestinal e geniturinário. O envolvimento da região óculo-palpebral é raro, podendo acontecer em aproximadamente 5% dos casos, resultando em acometimento variável, desde irritação local até cegueira, desfiguração e morte.(1)

A oftalmomiíase refere-se a invasão das pálpebras, conjuntiva, córnea, segmento anterior, segmento posterior ou orbitário pela larva.(3) Desta forma, a infecção pode ser classificada como: (1) oftalmomiíase externa, quando acomete a órbita ou os tecidos oculares anexos; (2) oftalmomiíase interna anterior, quando há envolvimento da câmara anterior do olho; (3) oftalmomiíase interna posterior, quando a larva acomete o segmento posterior.(1) O objetivo deste é relatar um caso de portador de oftalmomiíase externa, discorrendo sobre o quadro clínico, os diagnósticos diferenciais e as opções de tratamento.

O relato de caso teve o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado pelo paciente e, foi previamente submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos da Faculdade de Medicina de Valença - Rio de Janeiro.
 

Relato de Caso


MAOL, masculino, 44 anos, casado, caseiro de sitio, diabético insulino-dependente, natural de Mangaratiba/RJ, residente na zona rural, iniciou há 01 mês quadro de sinais oculares irritativos associado a edema palpebral e saída de secreção serosanguinolenta em olho direito. Procurou atendimento médico em Posto de Saúde da Família, próxima a sua residência, sendo iniciado tratamento com Tobradex® Colírio (Tobramicina 3 mg/ Dexametasona 1 mg) de 6/6h sem melhora do quadro apresentado. Com essa apresentação, o paciente procurou o Ambulatório Geral de Oftalmologia do Instituto Benjamin Constant, quando foi realizado o provável diagnóstico de Celulite pré -septal e iniciado tratamento com Cefalexina 500mg 6/6h e compressas “quentes”. O paciente foi encaminhado ao Departamento de Oculoplástica, após o sétimo dia de tratamento, já com redução do quadro inflamatório (Figura 1). Nesse momento, foi possível realizar a eversão da pálpebra superior, sendo realizado o diagnóstico de oftalmomiíase externa devido à apresentação de um orifício de drenagem externa em canto palpebral superior e observação direta da larva (Figura 2). Foi indicado uso de Ivermectina via oral em dose única de 150-200 µg/kg de peso e exérese da larva por procedimento cirúrgico, associado a reconstrução dos tecidos afetados, agendado para o primeiro dia útil. Nesse período o paciente apresentou expulsão espontânea da larva. O paciente evoluiu com regressão do edema palpebral e com adequado funcionamento palpebral não sendo necessário abordagem cirúrgica (Figuras 3 e 4).


 



 



Discussão


Muitas espécies diferentes de moscas podem produzir miíase. O tecido ocular pode ser afetado por transmissão mecânica e/ou pela atividade parasitária da larva.(4) A larva consegue invadir tanto o tecido necrosado, quanto o saudável. Muitas pessoas tornam-se infectadas por ingestão acidental de ovos ou larvas, ou ainda, por contaminação ou ferida externa da pele. (5) O paciente apresentado é morador de zona rural e diabético insulino-dependente. É conhecido que bebês e crianças pequenas, alcoólatras, pacientes debilitados não tratados, como diabéticos e deficientes mentais, pessoas de nível socioeconômico menos privilegiado, e habitantes de zona rural são alvos comuns a infestação com as moscas produtoras de miíase.(1,4,6) No presente caso, a forma clínica de apresentação assemelha-se a forma furunculóide, caracterizada pela formação de nódulos subcutâneos típicos onde, ocasionalmente, podem ocorrer infecções bacterianas e formação de abscessos.(7) No caso relatado, a infestação se deu por uma única larva, sendo inferido tratar-se de Dermatobia hominis, visto que não foi realizado identificação entomológica. O tratamento de miíase não é tarefa simples, pois muitas vezes há necessidade de manipulação de tecidos necróticos. O tratamento definitivo consiste na retirada da larva. (1) Existem várias formas de tratamento da miíase descritas e a escolha do tratamento varia a cada caso, segundo o número de larvas e o tecido envolvido.(8) São muitas as opções de tratamento para essa afecção, sendo a mais simples a retirada mecânica com pinça sob anestesia local. (1,8,9) Se a larva for retirada incompletamente, o remanescente pode produzir reação inflamatória, infecção ou granuloma.(8) A retirada mecânica da larva também pode ser realizada por desbridamento cirúrgico.(1) Outras alternativas incluem hábitos folclóricos com a utilização de várias substâncias para bloquear a via de respiração da larva, fazendo esta migrar para a superfície para a posterior retirada mecânica.(1,8,9) Optou-se no presente caso por uma desbridamento cirúrgico, associado ao uso de Ivermectina, utilizada por via oral, em dose única, como recomendado pela literatura.(4) O desbridamento cirúrgico não mostrou-se necessário pela expulsão espontânea da larva. A Ivermectina é um derivado semi-sintético da família dos macrolídeos.(8) Anti-helmíntico sistêmico, introduzido em 1980 como a droga antiparasitária de mais amplo espectro fabricada até então, é efetiva contra a maioria dos parasitas intestinais, a maioria dos artrópodes e alguns nematódeos.(9) A droga foi aprovada pelo FDA em 1997. O uso da Ivermectina por via oral propicia a eliminação da larva. O combate a mosca e a melhoria das condições de saneamento básico seriam fatores importantes na prevenção. Como se trata de um parasita de animais, e recomendado o tratamento dos animais. Uma grande contribuição na prevenção é o esclarecimento do paciente e seus familiares sobre a “bicheira” e os cuidados para evitá-la.(1) Os autores enfatizam a importância do diagnóstico da oftalmomiíase externa, afecção incomum nos grandes centros urbanos, seu tratamento e evolução.

 

Referências

 

1. Takahagi RU, Gonçalves FP, Madeira NG, Schellini SA. Oftalmomiíase externa causada por Cochliomyia hominivorax: Rev Bras Oftalmol. 2007; 66(1): 58-62.
2. Goodman RL, Montalvo MA, Reed JB, Scribbick F W, McHugh CP, Beatty RL, et al. Photo essay: Anterior orbital myiasis caused by human Botfly (Dermatobia hominis). Arch Ophthalmol. 2000;118(7):1002-3
3. Rodriguez ME, Aóki L, Nicoletti AG, Fernandes JB. Ivermectina no tratamento de miíase orbitária: relato de caso. Arq Bras Oftalmol. 2003; 66(4):519-21.
4. Lankilevicz PG, Vieira APIC, Grupenmacher PZ, Sobrinho JRN, Grupenmacher L. Oftalmomiíase em recém-nascido de sete dias: Rev Bras Oftalmol. 2007; 66(3): 197-9.
5. Pantaleão GR, Oescher RA, Correia RJB, Fischer R, Shiroma HF. Uso de ivermectina como tratamento coadjuvante na miíase orbital: Rev Bras Oftalmol. 2006; 6(65):352-5.
6. Moraes RG, Goulart GE. Parasitologia e Micologia Humana: Braquíceros, orthorrhpha cyclorrhapha principais famílias e espécies. 4a ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica; 2000. p. 536-7.
7. Linhares A. X. Míiase. In: Neves, D.P. Parasitologia humana. 10a ed. Atheneu. São Paulo; 2000. p.350-8
8. Couto Junior AS, Leão MN, Gonçalves MF . Oftalmomiíase externa causada por Dermatobia hominis. Ver Bras Oftalmol 2010; 69(5):328- 31.
9. Vaughan D, Asbury T, Riordan-eva P. Oftalmologia Geral: Conjuntiva. 15a ed. São Paulo: Atheneu; 2003. p.105-238.

 
IDENTIFICAÇÃO
Para acessar a área do médico, identifique-se informando os campos solicitados abaixo:
 
Revista Brasileira de Oftalmologia
Submissão de artigos para Revista Brasileira de Oftalmologia
Acesse:   
 
 
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
25
FEV
Permanecem abertas até 25/2, as inscrições para o Curso Básico em Oftalmologia 2019, da Fundação Altino Ventura. As vagas são limitadas. Mais informações na área do Médico, no link Banco de Oportunidades
08
FEV
Conselho Federal de Medicina divulga "Nota de Esclarecimento sobre Atendimento à Distância", alertando que todo exame médico deve ser presencial, exceto em caso de urgência ou emergência e impossibilidade comprovada de realizá-lo
20
MAR
Estão abertas até 20/3, as inscrições para o Curso de Semiologia Ocular Uerj 2019. Mais informações na área do Médico, no Banco de Oportunidades
19
FEV
O Hospital Federal dos Servidores do Estado (RJ) oferece uma vaga para o Programa de Fellowship em Estrabismo e Oftalmologia Pediátrica. As provas acontecerão dia 19/2. Saiba mais na área do Médico, em Banco de Oportunidades
11
ABR
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Ocular comemora 45 anos de história, no 27º Congresso Internacional de Oculoplástica, de 11 a 13 de abril, no Centro de Convenções, em Goiânia (GO)
18
JAN
Confira as áreas temáticas com os respectivos coordenadores disponíveis no Programa Científico, no site do X Congresso Nacional da SBO
17
JAN
Mais de 20 palestrantes internacionais e 40 brasileiros participam do Curso UV-Eye, do Instituto da Visão (IPEPO), de atualização dos conhecimentos em diagnósticos e tratamento de Uveítes, de março a junho de 2019. Saiba mais na área do médico em Banco de Oportunidades
16
JAN
Vaga para oftalmologista em uma clínica em Asa Norte (DF). Saiba mais na área do Médico, no link Banco de Oportunidades
08
MAR
Estão abertas até 8/3, as inscrições para o Programa de Subespecialização 2019 - Córnea Clínica e Cirúrgica do Iorj. A prova acontecerá dia 11/3
05
FEV
A partir de 5/2/2019, estão abertas as inscrições para o Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Oftalmologia, uma parceria da Estácio de Sá com a SBO
 
 Rua São Salvador, 107 - Laranjeiras - RJ - Cep: 22.231-170    Tel.: +55 (21) 3235-9220     E-mail: sbo@sboportal.org.br   E-mail Imprensa: midia@sboportal.org.br